quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Série A é "Coisa Feita", por Sérgio da Costa Ramos

O azul é a mais profunda das cores. Nele, o olhar mergulha sem encontrar qualquer resistência, perdendo-se até o infinito. O azul é o mais natural dos matizes, pois a cor nada mais é do que o reflexo do céu. O azul não é deste mundo. Sugere uma idéia de eternidade tranqüila e altaneira, que é "sobrenatural". O azul é a proximidade com Deus. Ou seja: O Senhor agora está bem representado na Série A.
No pico da Ilha Formosa O ponto culminante do Brasil não é o Pico da Bandeira, em Roraima. Depois que a bandeira do Avaí foi içada nos altos do Morro da Lagoa da Conceição, ontem à noite, assim que o fuzileiro Evando despachou o Brasiliense, o novo cume de uma montanha brasileira passou a ser o Morro do Padre Doutor, a 450 metros de altura - no entorno do mais conhecido umbigo da Ilha - Avaiana.
Não há artigo mais procurado na praça. A bandeira do Avaí passou a ser um símbolo de vitória muito mais expressivo do que a própria "Stars and Strips Forever", fincada em 1945 num morro da árida ilha de Iwo Jima, ao sul do arquipélago japonês, no momento mais fotografado da Segunda Guerra Mundial.

Não se encontra mais em loja alguma esse véu azul e branco, amuleto da gloriosa epopéia da Batalha da Série A, ontem vencida, crismada e coroada pelos fuzileiros avaianos.

A mais bela conquista dos 85 anos do Avaí começou com uma derrota.

Em seis minutos, uma vitória por 2 a 1, que daria ao clube o título do primeiro turno do Estadual de 2008, transformou-se numa constrangedora derrota por 3 a 2, consumada pela Chapecoense, nesta mesma Ressacada que ontem se cobriu de glórias.

O primeiro sinal de que o ano seria diferente veio da torre de comando. O general João Nilson Zunino e seu Estado Maior, inconformados, saíram a campo em busca do comandante ideal - um homem que devolvesse o "panache" ao esquadrão de Adolfinho, Saul e Nizeta.

O escolhido foi Silas Pereira e o eleito foi o Avaí. O ex-craque do São Paulo e da Seleção Brasileira entrou em campo para iluminar o caminho rumo à Série A - com poucas, porém certeiras contratações. E o estandarte azurra nunca mais conheceu o pó da derrota, pelo menos nas terras santas da Ressacada.

Ao final do segundo turno do Catarinense, o Avaí já era o melhor time de Santa Catarina e um dos melhores do sul do Brasil. Circunstância ignorada apenas pelos "encantadores" de arbitragens, Napoleões da esperteza que, cedo ou tarde, conheceriam o seu Waterloo.

Invicto, o Avaí foi "retirado" do campeonato, depois da sonegação de três pênaltis numa só partida. Pensando mais alto, sequer registrou o B.O. do furto qualificado.

Jours de Gloire
Nuvens mais altaneiras o esperavam. Uma campanha invicta até a nona rodada da Série B, revelava, ao cabo do primeiro turno, um competidor de elevado poder de fogo, a segunda força do campeonato, comparável apenas ao multimilionário projeto do Corinthians paulista.

Bem no meio da disputa, os obuses do inimigo abriram uma clareira nas formações azurras. Os inimigos comemoraram as "baixas".

O "mercado" e as chuteiras dos adversários desfizeram a dupla de ataque que disparava as granadas, em direção ao topo. Vandinho foi parar no Flamengo e Abuda na enfermaria.

Foi quando luziu a inspiração do Estado Maior azul. Uma nova dupla foi formada, com o poder de fogo de um general Patton, aliado ao general Zukov. Evando e William chegaram para restabelecer a pontaria, a partir da 17ª rodada. Então, "coisas inéditas", coisas que só o Avaí sabe fazer, começaram a se desatar no palco quase sempre encharcado da Ressacada. Com Eduardo Martini, Marquinhos, Evando & Cia, entraram em campo o Senhor dos Passos e Cruz e Sousa - avaianos de longa data, aliás, avaianos de "sempre".

O negro simbolista trouxe o "Vento Sul" - veterano artilheiro azurra - para tabelar com Evando e até com o goleiro Martini - autor de um gol eólico no jogo contra o Paraná, abertura do returno.

Era apenas a primeira de uma coleção de mágicas: elas foram inauguradas com o gol de bicicleta contra o Corinthians e o "lençol anfíbio" contra o Bahia - obras de Evando e Marquinhos. Mais o passe "Fui-Mas-Não-Fui", contra o Marília, abracadabra com a qual Evando colocou William na chamada "cara do gol".

Glória com chuva
Houve um momento que, aos adversários, juntou-se o mau tempo - e o Avaí teve que justificar o seu berço de luta. De haver nascido com o nome de uma batalha "dentro dágua". Contra o Paraná, Fortaleza, Bahia, Criciúma e Marília, o campo se transformou num brejo e o time foi obrigado a jogar pólo-submarino: venceu todas as partidas, com a garra e a mística do "Faz-Coisa".

Quando os próprios avaianos não sabem explicar as razões de sua glória, dentre tantas as que foram consagradas ao azurra, apelam para o velho misticismo de que "esse Avaí faz coisa".

Viver o sonho da Série A é um prematuro presente de Natal para avaianos "galáticos", como Saulzinho, Nizeta e Tullo Cavalazzi, irmão de outro inesquecível Cavalazzi, o endiabrado "Bitanha".

É uma homenagem a Zenon e sua refinada técnica. É uma lembrança do estilista Veneza, maior zagueiro que já vi jogar. É um cumprimento aos bravos Toninho e Juti, e, mais recentemente, um aceno ao craque Adilson Heleno.

É um agradecimento a Guga Kuerten, craque de outra bolinha, que, coroado Rei de Roland Garros, declarou à imprensa universal, olhos injetados de puro amor ao azul:

- Sou Avaí e o meu ídolo é o Jacaré!

Perfilou-se, então, para ouvir em pleno Bois-de-Bologne a "Marselhesa" dos hinos de clubes brasileiros - sim, em francês! Obra dos avaianos Fernando Bastos e Luiz Henrique Rosa, versão inspirada de José Bastos, em seu momento "Charles Aznavour":

À lîle charmante/
Pleine de Grace/
Léquipe pugnace/
Ce peuple ces gens,/
Emotion enrichie/
Il n y a qun coeur /
De mon Avai...
Avai, mon Avai
À lÎle tu es le Lion
Avai, mon Avai
Tu es déjà né champion...

É impossível contabilizar méritos neste momento de consagração. Mas há gerações de figuras alpinas neste Avaí guindado à Série A, depois de 85 anos. Há velhos Himalaias, como Amadeu Horn e Arnaldo Pinto de Oliveira, fundadores. Há Everests como Aderbal Ramos da Silva, Saul Oliveira, José Amorim e João Salum. Há a generosa entrega cardiovascular do sangue azul que habita as artérias dos irmãos Bastos, José e Fernando - a este creditado, sobretudo, a Marselhesa que enaltece o "Leão da Ilha Formosa". Há a devoção e a entrega de Flávio Félix, Campeão Brasileiro da Série C - um homem de estrela.

E há este incansável herói do presente, o presidente João Nilson Zunino, que contra todos os incréus, acaba de levar o Avaí à sua maior conquista e aos seus "jours de gloire": o acesso à Série A do futebol brasileiro.

Recuso-me a continuar escrevendo. Vou me incorporar à próxima carreata - foguete no ar, bandeira na mão, o Avaí no coração.

7 anos em 1

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O Melhor ano da História

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